Gestores aproveitam quedas na bolsa para trocar algumas posições e calibrar apostas de longo prazo
Com a forte instabilidade na bolsa, que baixou os preços de muitas ações para níveis similares aos de dois ou três anos atrás, os teóricos dizem que comprar com convicção vale apenas para quem almeja retornos consistentes no longo prazo. Pois é o que estão fazendo os gestores cujos fundos conquistaram 5 estrelas no Star Ranking da Standard & Poor’s (S&P). O momento, dizem, tem permitido sobretudo reforçar posições que já estavam montadas.
No início de agosto, o gestor do fundo GTI Value, André Gordon, atendeu bem humorado a reportagem da ValorInveste. No dia anterior, a BM&F Bovespa havia recuado quase 10%, o que não acontecia desde 2008. Aproveitando-se do pânico no mercado, ele adquiriu mais ações do Itaú Unibanco, Braskem e Marfrig. “Fizemos a festa”, brincou.
Ele diz que não tinha Itaú no começo do ano. Entrou em maio e reforçou a posição no início de agosto. Quando o mercado reagiu mal aos resultados financeiros da instituição no segundo trimestre, comprou mais. “Uma coisa é a conjuntura e outra é a estrutura. Não há como achar ruim o lucro do Itaú, um banco premium em termos globais”, afirma Gordon. As ações ordinárias (ON) do Itaú representavam em agosto a maior posição individual do fundo, equivalente a cerca de 7% do patrimônio líquido. O gestor explica que a escolha pelas ON ocorreu em função de um desconto no preço em relação às preferenciais (PN, sem direito a voto), o que elevava o retorno com dividendos do papel.
Gordon conta que Braskem era a maior alocação do fundo em 2010, com 9,5%. A queda nas cotações fez a participação baixar para 4%, mas, com as compras recentes, o peso subiu para 6,5% no mês passado. Em Marfrig, ele diz que, apesar de a dívida ser alta, “está em linha com o caixa”. Outras apostas são BicBanco, Valid (ex-American Banknote), Gerdau, Brookfield, Cyrela, Brasil Brokers, Eternit, Providência e Metalfrio.
Na Itaú Asset Management, os fundos de small caps em destaque têm 90% das carteiras formadas por ações de empresas com negócios ligados à economia doméstica, afirma a gestora Roberta Kosaka. Ela revela que , em meados de agosto, estava reduzindo algumas apostas, como em EcoRodovias, e ampliando a fatia de papéis como Anhanguera, Iochpe, Marcopolo e Randon, que “apanharam mais do que o necessário”.
Os principais setores hoje nos fundos premiados do Itaú são os de consumo, bens de capital, imobiliário, saúde e educação. Nesse conjunto, Roberta ressalta as ações da Hering, Guararapes, Alpargatas, Lopes, Even, PDG, Amil e Drogasil/Raia.
Na Perfin Investimentos, o sócio-gestor Ralph Gustavo Rosenberg afirma que, diante da realidade de crescimento mundial mais modesto, a solução é aplicar em empresas voltadas para o mercado brasileiro, com negócios cíclicos ou não. Ele diz ter saído de algumas ações de empresas com promessa de expansão vigorosa – e que, dessa forma, têm um risco de execução maior. “Vendemos tudo em SulAmérica, por exemplo. O setor de bancos está mais atrativo”.
Na opinião do executivo, chamou atenção a oportunidade em Itaúsa, que, apesar de continuar “oferecendo retorno sobre o patrimônio líquido de 20% ao ano”, viu as ações PN recuarem para preços de 2007. De acordo com Rosenberg, outras empresas relevantes no fundo Perfin Foresight são Gerdau, Cyrela, Pão de Açúcar, Hypermarcas, Guararapes, General Shopping e BRF Brasil Foods.
Marcelo Faria, gestor do Kondor FIA, diz que o portfólio vinha mantendo uma posição de caixa elevada desde o início do ano, oscilando entre 20% e 15% do patrimônio líquido, mas as oportunidades de compra no início de agosto fizeram o nível baixar para 10%. “Atualmente, Vale está muito barata”, ressalta. Ele garante ter triplicado a participação da mineradora na carteira, alcançando 15%. Outro destaque foi Itaú, cujo peso dobrou, atingindo 12%.
Para Faria, o fundo tem enfrentado bem as turbulências na bolsa em razão de um perfil mais defensivo. “Estamos otimistas com nossas posições e cautelosos com o cenário em geral”, afirma. “Por isso, estamos comprando aos poucos. Respeitamos os riscos advindos dos Estados Unidos e Europa.”
O viés defensivo também é visto no HSBC Xangai Aquamarine Private 10, cuja meta é superar o principal índice da bolsa (Ibovespa) mantendo 95% do portfólio alocado em fundos de ações, que podem ser da própria casa ou de outras gestoras.
Adilson Ferrarezi, diretor de multimanager da HSBC Global Asset Management, diz que no primeiro semestre a carteira esteve mais focada em dividendos. A partir de julho, o balanceamento do portfólio, que é monitorado por um comitê de investimentos, ficou da seguinte forma: 60% nos chamados “fundos de valor” (que apostam em empresas consolidadas e têm horizonte de longo prazo), 25% em carteiras que busquem bater o Ibovespa e o restante em produtos focados em small caps. Ele detalha ainda que os produtos de valor embutem hoje uma parcela de dividendos. “Devemos manter essa composição pelos próximos dois meses”, afirma.
A chacoalhada na bolsa no mês passado, principalmente entre a primeira e a segunda semana, permitiu até que os fundos especializados em papéis com baixíssimo nível de negociação conseguissem ampliar suas posições. Foi o caso do JMalucelli Small Caps, que abriga ações como Battistella, Jereissati, Aço Altona, Karsten, Unipar, Bematech, Fras-le, Valid e Unipar, conta o gestor Leonardo Deeke Boguszewski. Segundo ele, para ingressar no portfólio, o valor de mercado de uma companhia não pode superar R$ 4 bilhões no momento da aquisição.
“A baixa liquidez não nos incomoda” enfatiza Roberto Sevalli, diretor da JMalucelli Investimentos. “Buscamos retornos a partir de quatro ou cinco anos (da seleção do ativo).” Em caso de pedidos de resgate, dado o perfil da carteira, as cotas são calculadas com um intervalo superior a duas semanas (D+17) e a liquidação financeira acontece três dias depois.
Sevalli diz que a gestora é adepta do que chama de “trabalho à moda antiga”, que consiste em analisar a fundo um setor, visitar as empresas, acompanhar o perfil de gestão da companhia escolhida etc. “Não compramos nem vendemos ações, somos sócios das companhias”.
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